Glossário clínico

Avaliação primária pediátrica

Avaliação sistemática ABCDE que identifica e trata ameaças imediatas à vida enquanto o profissional avança por via aérea, respiração, circulação, neurologia e exposição.

Conteúdo médico por Carlos Eduardo Miranda Bruzzi Felipe · CRM/MG 105.721 · atualizado em .

A avaliação primária é o núcleo operacional do atendimento à criança potencialmente grave. Ela organiza o exame em A–B–C–D–E e parte de uma regra importante: ameaça identificada deve ser tratada antes de avançar como se fosse apenas um item de checklist. A avaliação e a intervenção acontecem juntas.

O método também reduz viés. Em vez de perseguir o diagnóstico mais provável desde o primeiro minuto, o profissional procura primeiro aquilo que ameaça oxigenação, ventilação, perfusão e função neurológica. O diagnóstico etiológico ganha espaço depois que a fisiologia imediata está protegida.

A, B e C: preservar oxigenação, ventilação e perfusão

Em A, a pergunta é se a via aérea está patente e sustentável. Em B, avaliam-se frequência, esforço, entrada de ar, sons respiratórios e oxigenação, procurando distinguir desconforto de falência respiratória. Em C, frequência cardíaca, pulsos, perfusão periférica, pressão e estado mental ajudam a reconhecer choque antes que a hipotensão apareça.

A sequência não significa isolamento entre sistemas. Alteração de consciência pode ser consequência de hipoxemia; taquicardia pode refletir trabalho respiratório, febre ou choque; ventilação com pressão positiva pode modificar hemodinâmica. O método organiza a observação, mas o raciocínio precisa integrar os achados.

D e E: neurologia rápida sem perder o contexto

D inclui responsividade, pupilas e avaliação neurológica rápida, frequentemente com AVDI/AVPU e, quando necessário, Glasgow pediátrica. Glicemia deve ser considerada cedo em alteração de sensório porque hipoglicemia é causa reversível e potencialmente grave.

E procura lesões, rash, trauma, temperatura e outros achados que só aparecem com exposição adequada. Em pediatria, a exposição precisa ser equilibrada com prevenção de hipotermia. Examinar completamente não significa deixar a criança descoberta além do necessário.

Reavaliação após cada intervenção

A avaliação primária é cíclica. Oxigênio, ventilação, fluido, broncodilatador, controle de hemorragia ou qualquer intervenção relevante deve ser seguido de nova leitura dos sistemas. Melhorou? Piorou? Um problema secundário tornou-se prioritário? Essa reavaliação evita continuar um tratamento que não está produzindo o efeito esperado.

Em transferência de cuidado, comunicar os achados por ABCDE ajuda a equipe receptora a entender não apenas o diagnóstico presumido, mas a fisiologia atual e o que já foi feito.

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